No início de 2015 quis conhecer o país que deu à luz uma filosofia que muito aprecio, yoga. Aterrei em New Deli, segui para Rishikesh, a cidade mundial do yoga, porta para os Himalaias, atravessada pelo rio sagrado dos hindus, o Ganges. Por ali fiquei 12 dias, ouvindo mestres, estudando o Bagvadgita e praticando asanas (posturas de yoga).

 

Uma feliz coincidência e troca de experiências levou-me até ao sul, ao distrito de Kerala e ashram de uma mulher que em tempos desejei conhecer, quando li Filhas da Deusa, de Linda Johnsen. Refiro-me a Mata Amritanandamayi Devi, carinhosamente conhecida por Amma, a Mãe. De pequena estatura, envolta num simples sari branco, rosto sorridente e braços abertos para os milhares de devotos que diariamente se deslocam ao ashram de Amritapuri, Amma apresenta-se sempre com uma energia espantosa quer seja para meditar no templo, conduzir os cânticos devocionais bhajan no Grande Hall, dar Satsanga (ensinamentos espirituais em resposta às muitas cartas que lhe chegam), atender pedidos particulares, dar resposta a assuntos urgentes ou dar a cada visitante darshan, ou seja, o abraço que purifica e abençoa aquele que o recebe.

 

Viver para ajudar os outros

Sabia que Amma era procurada pelos seus abraços, mas desconhecia quase por completo a magnitude da sua obra. Nos dias em que permaneci em Amritapuri pude perceber o admirável trabalho social e humanitário que desenvolve há anos. Esta mulher que nasceu numa família sem recursos e que aos 9 anos teve de cuidar da família, criou um ashram que pode alojar cerca de 10 mil pessoas, construiu hospitais, onde os que não têm recursos, não pagam, escolas, universidades, casas para famílias necessitadas e a sua organização com fins não lucrativos, Embrassing the World, tem tido uma acção muito eficaz não só na Índia, mas no mundo, por exemplo, fazendo donativos e ajudando a reconstruir estados devastados por cataclismos, como foi o caso do furacão katrina.

Esta mulher, que vive para ajudar os outros, é um exemplo para o mundo e, sobretudo, para as entidades governamentais que, desculpem-me o desabafo, fazem muito pouco com muito mais recursos.

 

O encontro com Amma

Naquele dia, depois do Satsanga da manhã, Amma ajudou a servir o almoço às cerca de 5 mil pessoas presentes. Com um trabalho voluntário e desinteressado, seva, que Amma tanto valoriza, tudo decorreu numa espantosa serenidade. Pouco tempo depois, a Mãe Divina estava à mesa com todos os seus filhos, visível num enorme ecrã gigante para que todos pudessem ver e sentir a sua presença. Terminada a refeição, eu e o meu irmão, companheiro desta grande viagem, aproximamo-nos de Amma. Queríamos estar perto dela e eis que algo de inesperado aconteceu: mesmo não sendo o dia de dar darshan aos seus visitantes, a Mãe começou a abraçar os filhos que naquele momento a rodeavam. As discípulas, igualmente vestidas de branco, que estavam por perto, começaram a organizar uma fila, perguntando a cada um dos presentes quando partiriam. Respondi-lhes que o dia seguinte (dia de darshan) seria o nosso último dia. «Não deixem para amanhã, fiquem aqui!».amma

Entretanto, atrás de mim estava uma mulher que repetia em inglês «algo de muito especial está a acontecer aqui!», «Sim, Amma é realmente espantosa», disse eu, pensando naquela disponibilidade total para os outros. «Não, não está a perceber – respondeu-me ela – algo de verdadeiramente especial está a passar-se aqui, agora!» Aquela mulher estava coberta de razão, Amma estava num estado de pura dádiva e abraçava os seus filhos, um a um, com uma enorme entrega. Havia uma energia forte no ar e, enquanto o meu momento se aproximava, pensei em dizer-lhe o quanto eu estava maravilhada com a amplitude do seu trabalho, o quanto eu me sentia honrada em conhecê-la. Mas, assim que me vi frente a Amma, nada disse, porque compreendi que ela não estava num estado de receber, mas apenas de dar. Só isso era importante para Amma.

Entreguei-me àquele momento, deixando descair a minha cabeça no seu peito. O seu corpo vibrava, tal era a energia que o trespassava. Tive a sensação de ficar suspensa em seu regaço, enquanto me segredava alguma coisa ao ouvido, provavelmente em hindi. Uma mão esteve no meu peito, do lado esquerdo e a sua impressão permaneceu durante largos minutos. Alguém me colocou na mão direita um pequeno presente de Amma, um pacotinho com uma espécie de talco aromatizado e um minúsculo rebuçado.

Saí daquele abraço embalada por uma energia dulcíssima e porque queria perpetuar aquele momento, sentei-me num local com menos gente, fechei os olhos e a bênção continuou ou talvez se tenha aprofundado. Lágrimas de emoção corriam pelo meu rosto, não só pelo amor que sentia, como pelas compreensões que fazia e pela presença com que fui abençoada. A meu lado estava o maior dos Mestres. Este foi para mim o melhor presente que pude alguma vez receber e que está guardado no meu coração para me encorajar a seguir o caminho.

Uma viagem que se tornou inesquecível

Amma é a prova viva de que podemos estar permanentemente conectados com a Fonte Divina que é puro Amor. É por esta razão que a sua energia e amor nunca se esgotam, mas renovam-se a cada momento, em cada novo abraço. Amma chega a ficar 22 horas seguidas a dar darshan nos seus ashrams ou em várias partes do mundo, onde se desloca com esse fim. Estima-se que a Santa de Kerala, que não precisa de dormir mais do que duas horas por dia, tenha dado cerca de 26 milhões de abraços.

Adorei ter conhecido pessoalmente esta mulher que é um exemplo vivo do amor divino e do bem que podemos fazer aos outros. Sinto que este encontro com Amma foi o mais importante da minha viagem à Índia e que tudo o resto que vi, fiz ou ouvi naquela terra abençoada em nada se compara com os momentos passados na simplicidade e beleza tropical de Amritapuri, um espaço fundado a partir do amor da mulher que abraça o mundo.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº77 (edição de Junho de 2015)